Jornalismo cidadão: no fio da navalha

The space for the audience to participate in journalism is, by and large, clearly delineated. The public can send in their news tips, photos and videos, but the journalist retains a traditional gatekeeper role, deciding what is newsworthy and what isn’t. There is little room for the public to be involved in the actual making of the news — in deciding whom to interview, how to frame the story and how to produce it. Once the story is complete and published, the audience can freely comment on the final product.

The space for the audience to participate in journalism is, by and large, clearly delineated. The public can send in their news tips, photos and videos, but the journalist retains a traditional gatekeeper role, deciding what is newsworthy and what isn’t. There is little room for the public to be involved in the actual making of the news — in deciding whom to interview, how to frame the story and how to produce it. Once the story is complete and published, the audience can freely comment on the final productAlfred Hermida, Mainstream Media Miss the Point of Participatory Journalism

A audiência ainda é a audiência, conclui sem disfarçar a decepção o texto acima, publicado no MediaShift. O artigo analisa os trabalhos que tratavam participação do público na produção do conteúdo apresentados na Future of Journalism conference. E traz muitos elementos interessantes sobre os quais as pessoas que trabalham com isso podem refletir. Na minha opinião, o mais interessante é este:

O que representa o conteúdo gerado pelo usuário? É uma forma que os meios de comunicação têm de tirar vantagem de seus leitores, que enviam fotos, vídeos e notícias gratuitamente a seus veículos favoritos sem serem pagos por isso? É uma forma de gerar tráfego no site, já que abrimos as portas para comentários em que os leitores ficam debatendo (ou falando sozinhos, todos juntos) dentro de nossas páginas? É uma forma de ampliarmos para a sociedade a participação na construção de uma notícia? É uma forma de os leitores direcionarem o foco das atenções para problemas de suas comunidades que não teriam outro lugar (não com tanta repercussão) para se exibir com destaque?

Da minha modesta experiência, acredito que é tudo isso ao mesmo tempo e depende, acima de tudo, do modo como os jornalistas gerenciam (ou não) a participação dos leitores e de como estes próprios leitores decidem se apropriar destes espaços. É claro que o primeiro fator pesa muito mais – e não depende apenas da visão individual de um profissional, mas certamente tem a ver como o modo como aquele veículo entende que devem ser os espaços de participação.

De qualquer forma, tenho dúvidas se o fato de a audiência ainda ser a audiência é ou não algo a se lamentar. Não acredito que qualquer veículo que pense um pouco sobre o tema realmente tenha um conceito de audiência (e do seu papel) igual ao que tinha há 10 anos. Tenho certeza que este é um conceito bastante mutante.

Por outro lado, quando falamos de grandes veículos, com décadas de história, temos que lembrar que a audiência não é somente o cidadão que quer participar, que quer debater a construção da notícia, que quer se engajar na definição da linha editorial. A audiência é também quem lê, assiste, ouve e confia naquela informação porque confia nos profissionais que trabalham ali. Para a audiência que lê, pode não interessar muito se esse profissional é ou não um jornalista, mas interessa que a informação seja precisa e contextualizada.

E talvez dois grandes aspectos a serem trabalhados para uma transposição desta dicotomia entre o pensamento do jornalismo cidadão “democratizante” e o “aproveitador” sejam os seguintes:

1. a visão que o próprio jornalista tem do seu papel quando trabalha com este tipo de conteúdo: quero ganhar mais pagando nada (ou quase nada)? quero promover debates relevantes? quero valorizar problemas de uma comunidade? quero fotos sensacionalistas? quero milhares de pessoas falando sozinhas ao mesmo tempo? Claro que nenhum dos itens exclui os demais e claro que tudo também depende das condições de trabalho, especialmente do tempo, disponíveis para esta tarefa. Mas parar e pensar sobre isso me parece um primeiro passo.

2. a disseminação mais ampla de conhecimentos sobre técnicas e regras básicas do jornalismo para a audiência interessada na produção de notícias. Acho que seria extremamente enriquecedor que pudéssemos passar para um nível acima do envio de fotos de acidentes ou tragédias climáticas, que fôssemos capazes de fornecer instrumentos para as pessoas contarem melhor as histórias e notícias que testemunharam – seja numa participação eventual ou entre aqueles mais engajados. Que o jornalista conseguisse se colocar como um mediador que não simplesmente pede, seleciona ou edita histórias, mas oferece ferramentas para que as pessoas compreendam suas histórias e tornem-se capazes de contá-las aos outros de forma que façam sentido.

E nada disso é fácil, mas acho que são elementos mínimos em que devemos pensar quando falamos do significado da expressão “jornalismo cidadão“.

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