Não que caminhadas por si só não possam ser iluminadoras, mas resolvi dar uma força e, nos últimos dias, baixei algumas palestras do TED. Aí topei com Malcom Gladwell, que me parece uma criatura muito interessante mas cujos livros não estão no topo da minha lista de prioridades. Ok, neste vídeo de 2004 ele fala sobre molho de tomate. Quase 20 minutos de fala sobre molho de tomate. Curioso. E melhor: na verdade, o discurso é sobre felicidade.
Para Gladwell, poucas pessoas fizeram tanto pela felicidade dos americanos quanto Howard Moscowits. Isso porque partiu dele o seguinte insight: não existe molho de tomate perfeito. Até então, toda indústria alimentícia buscava um sabor ideal para seus produtos. A mostarda perfeita. A Pepsi perfeita. Baseados na receita mais próxima à original (o molho de tomate como o dos italianos) ou no resultado do gosto médio de um grupo de testes, chegava-se ao conteúdo das latas que iriam para as prateleiras dos supermercados. Mas o que agrada em um país pode não servir para outro, e a média é um número do qual, na verdade, ninguém gostou muito.
O que Moscowitz propôs foi: vamos esquecer o molho de tomate perfeito. Vamos oferecer várias opções: com mais ou menos alho, mais ou menos pimenta, mais ou menos consistência! Parece simples, não? Mas eu ainda lembro de quando ia no super e as escolhas eram simplesmente entre as marcas: xampu era xampu. Não existiam corredores inteiros dedicados a milhares de modalidades de xampu – o que é divertido para alguns, mas pode ser uma tortura para quem simplesmente quer um xampu, sem precisar refletir muito sobre o assunto.
Mas Gladwell não estava tão preocupado assim com os sabores de molho de tomate neste vídeo. A conclusão da palestra é singela: Moscowitz contribuiu para a felicidade das pessoas porque colocou em evidência a defesa da diversidade. Ninguém é obrigado a gostar do que a média das pessoas gosta. Há espaço para a diferença (e até para ganhar dinheiro com ela). E a lição é: ao abraçarmos a diversidade dos seres humanos, vamos encontrar um caminho para a felicidade.
Assisti no ano passado na PUC uma palestra com David de Ugarte sobre redes sociais e internet. A frase mais repetida pelo David durante toda aquela tarde foi “não existe molho de tomate perfeito”. O que isso tem a ver com redes sociais e internet? Tudo. A internet representa a emergência de um novo ecossistema da informação, em que predomina a lógica da abundância. Ainda mais do que no mundo dos molhos de tomate, de maneira geral a nova era das redes distribuidas permite a liberação dos centros de distribuição. O principal paralelo é entre jornais e blogs: os primeiros são filtros de informação, os segundos são disseminadores:
Assim como o software livre representa um novo tipo de bem público não-estatal, a blogosfera é um meio de comunicação distribuído, público, gratuito e transnacional, a primeira esfera pública democrática real e praticamente universal. Se a mídia, e sobretudo a televisão, havia privatizado a vida pública e o debate político, reduzindo o imaginário a um espetáculo totalitário produzido industrialmente segundo os mesmos padrões da produção das coisas, a blogosfera representa o começo de uma verdadeira reconquista da informação e do imaginário como criações coletivas e desmercantilizadas (O poder das redes, p.42)
As multidões de blogueiros criam multidões de sabores diferentes de informação misturada a relatos de vida, pensamentos, projetos, compartilhamento de links de notícias, conversas… Nenhum deles é perfeito mas, juntos, fazem emergir uma infinidade de escolhas a que as pessoas podem aderir em experiências momentâneas de satisfação. Nenhuma filiação precisa ser permanente. É uma configuração de troca de informações totalmente diferente da experiência do jornalismo até agora. E que papel têm os jornais nessa busca extremamente individualizada pela felicidade?