Boa a idéia do projeto Ambulantes no Trem, trabalho de conclusão de curso de alunos de jornalismo da Universidade Anhembi Morumbi (cheguei lá através deste post do Andre Deak) . É um exemplo bem legal de jornalismo multimídia, especialmente por ter sido pensado nestes moldes desde a sua concepção. Pelo que li, foram seis meses de planejamento e outros seis de mão da massa – busca de depoimentos e imagens no local mais montagem do site. É uma pena que “na vida real” dificilmente cinco profissionais de grandes veículos possam se dedicar durante tanto tempo a um único projeto, e pode ser por isso que é tão raro de se ver outras reportagens multimídia que causem tão boa impressão, pelo menos na imprensa brasileira.
Assisti a todos os vídeos dentro da seção “Vendedores” e não me lembro de nenhum que não fale da difícil batalha contra os seguranças dos trens. Para um trabalho que pretende ser uma reportagem, achei um problema bem grave o fato de eu não ter encontrado em lugar nenhum uma entrevista com um desses agentes que têm a tarefa de recolher a mercadoria. Eles são acusados de agir com brutalidade contra os vendedores, mas e eles? Como chegaram até ali? Que tipo de pressão sofrem por parte da gerência? Concordam com a norma ou fazem apenas porque é seu trabalho? Depois de um bom tempo procurando, resolvi clicar atrás da porta da seção de vendedores, onde lembrava vagamente de ter visto um logo da CPTM – que eu tinha entendido como um link para a página oficial da empresa. Ali encontrei a entrevista com um assessor de imprensa e com policiais ferroviários, sendo que estes negam que seja tarefa deles retirar a mercadoria dos vendedores. Eles – aliás, apenas um dos dois fala, o outro apenas se apresenta e depois fica sentado mudo todo o tempo – contam a história da polícia ferroviária, dizem quais são suas funções, mas não têm nada a ver com os ambulantes (pelo que eles dizem, quem faz isso é a segurança terceirizada). Por outro lado, eles acusam os ambulantes de venderem drogas – e o assessor de imprensa comenta que não é rara a exploração de trabalho infantil. E então? Eles vendem mesmo drogas ou exploram crianças? Conhecem quem faça isso? O que eles têm a declarar sobre o assunto, em sua defesa? Não vi os ambulantes comentarem esses assuntos.
Senti falta também de imagens de ação: em seis meses, não foi possível registrar nenhuma vez essa ação dos seguranças contra os ambulantes, nem sequer uma abordagem? É contraditório os vendedores só falarem disso e, ao mesmo tempo, a reportagem não mostrar nada (vi apenas uma foto, se não me engano, dentro de um dos vídeos, que mostrava dois seguranças e algo que parecia ser uma sacola, junto com uma terceira pessoa que deve ser um vendedor).
Achei também um pouco monótono o fato de os vídeos mostrarem apenas depoimentos intercalados com imagens de pessoas entrando e saindo dos trens com alguns vendedores oferecendo a mercadoria. Na parte que fala de cotidiano, por que não mostraram mais da realidade dos entrevistados? A casa deles, o lugar onde costumam fazer refeições, a mulher tendo que arrumar a casa ainda depois que chega do trabalho, o lugar onde eles compram as mercadorias? Acho que teria sido mais legal segui-los no seu dia-a-dia, pra não precisar ficar contando apenas com depoimentos. Outra: a seção “contos” só traz história de ambulante apanhando/discutindo/sofrendo nas mãos dos seguranças, que é o mesmo que eles falam nos outros vídeos, basicamente. Em dez anos como vendedor, aquele rapaz não tem nenhum outro tipo de história pra contar? Eles devem testemunhar inúmeras situações interessantes, por que não falaram de outra coisa? Não vejo problema a reportagem tratar só disso, na verdade, mas aí poderia ter um nome menos abrangente, algo como “Ambulantes versus segurança nos trens”.
Outras questões para as quais eu gostaria de ter encontrado as respostas: quanto os vendedores conseguem ganhar por dia, por mês, mais ou menos? De onde eles vêm as mercadorias? Quanto ganham estes “distribuidores” que vendem para os ambulantes? Eles vendem sem nota, certo? Quanto o Estado deixa de arrecadar com essa sonegação? Os “economistas” falam sobre o trabalho informal de maneira mais ampla, mas poderiam também projetar esses valores, falando especificamente das conseqüências econômicas do trabalho informal destes ambulantes nos trens de São Paulo. Se essas informações estão ali, talvez a navegação pudesse ser um pouco mais clara, com algum tipo de índice ou sinalização que informe quais são e onde estão todos os tipos de conteúdo reunidos.
Mas enfim, como projeto experimental, é mesmo um trabalho bem interessante. Serve para mostrar o quanto é desafiador conseguir reunir com sucesso uma história bem contada – sem buracos – junto com material multimídia e uma boa apresentação.
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sou deficiente ninguem nunca me da um emprego mo preconceito tive tumor prejudicou meu cerembro e meu rin dai vendo no trem tem sido uma mãe pra mim
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